A indústria que transforma e projeta Ponta Grossa por Rafael Rickli
A indústria de Ponta Grossa impulsiona empregos, arrecadação e inovação e prepara a cidade para um novo ciclo de desenvolvimento econômico.

A história econômica de Ponta Grossa pode ser lida como uma sucessão de caminhos que se encontram. Primeiro, as rotas dos tropeiros; depois, os trilhos e as rodovias; mais tarde, as cadeias globais de produção. Em cada etapa, a cidade soube transformar sua posição geográfica em oportunidade. A implantação do Distrito Industrial Cyro Martins, na década de 1970, deu forma planejada a essa vocação e abriu espaço para uma industrialização contínua. O que começou ligado ao beneficiamento de grãos tornou-se, ao longo de meio século, um parque fabril diversificado e integrado aos mercados nacional e internacional.
Atualmente, Ponta Grossa abriga o maior polo industrial do interior do Paraná. No município convivem grupos globais, cooperativas, empresas nacionais e uma rede de pequenas e médias indústrias fornecedoras de produtos, serviços e tecnologia. Alimentos e bebidas, agronegócio, papel e embalagens, metalmecânico, madeira, produtos químicos, fertilizantes, borracha, automação e equipamentos de transporte formam uma base produtiva que não depende de uma única atividade. Empresas como Cargill, Bunge, Ambev, Heineken, Tetra Pak, DAF/PACCAR, Continental e Frísia projetam o nome da cidade, enquanto centenas de negócios locais completam as cadeias de valor e fazem a riqueza circular no território.
Os números traduzem a dimensão dessa transformação. Em 2024, o Valor Adicionado Fiscal gerado pela indústria alcançou cerca de R$ 14,06 bilhões, correspondendo a 64,6% de todo o VAF municipal. Em 2020, esse valor era de cerca de R$ 6,1 bilhões. Em quatro anos, portanto, a riqueza fiscal produzida pelo setor mais que dobrou. O VAF mede quanto cada atividade acrescenta à economia e influencia a participação do município na distribuição do ICMS. Quando a indústria cresce, fortalecem-se a arrecadação pública, o mercado para fornecedores, a circulação de renda e as oportunidades para a população.
A presença industrial também se revela no emprego. Dos cerca de 108 mil vínculos formais existentes em Ponta Grossa, aproximadamente 21,7 mil estão na indústria — praticamente um em cada cinco. São postos que abrangem da operação e manutenção à engenharia, tecnologia, logística e gestão. Ao demandar qualificação e gerar encadeamentos com comércio e serviços, a fábrica produz efeitos muito além de seus portões. Cada nova linha de produção movimenta transportadoras, oficinas, empresas de automação, escritórios e prestadores de inúmeras especialidades.
Essa força não resulta apenas da localização privilegiada. O entroncamento rodoferroviário, a proximidade do Porto de Paranaguá e a ligação com os mercados do Sul e do Sudeste permanecem decisivos, mas a cidade acrescentou outros ativos: universidades, centros de pesquisa e uma estrutura de formação profissional apoiada pelo SESI e pelo SENAI. Soma-se a isso a atuação da ACIPG, da FIEP, da Casa da Indústria, do CDEPG, dos núcleos empresariais e do poder público. A capacidade de reunir diferentes instituições em torno de desafios comuns transforma demandas isoladas em uma agenda de desenvolvimento.
O próximo ciclo, entretanto, exigirá mais do que atrair novas plantas. Será necessário assegurar energia confiável e competitiva, ampliar a oferta de trabalhadores qualificados, melhorar o transporte e o acesso aos distritos industriais, diversificar a conectividade aérea e modernizar a infraestrutura logística. A implantação de um porto seco, a atualização das rodovias e ferrovias, a disponibilidade de áreas industriais e a agilidade dos processos públicos serão determinantes para manter o crescimento. Também será preciso avançar em inovação, sustentabilidade e agregação de valor, para que Ponta Grossa e os Campos Gerais sejam reconhecidos não apenas como produtores de matérias-primas, mas como uma região capaz de transformá-las em produtos, conhecimento e tecnologia.
O desafio é crescer sem perder a capacidade de planejar. O Masterplan Ponta Grossa 2043 oferece uma visão de longo prazo, mas sua realização dependerá da cooperação entre indústria, governo, academia e sociedade. A experiência da cidade demonstra que nenhuma grande conquista foi resultado de um único ator. Foi assim com as estradas, a energia, o distrito industrial e a formação profissional; deverá ser assim também com a infraestrutura e os talentos necessários ao futuro.
Das antigas invernadas às modernas linhas de produção, Ponta Grossa preserva a essência de um lugar onde caminhos se encontram e negócios prosperam. Suas chaminés já não representam apenas fábricas: representam empregos, inovação, renda e pertencimento. Se o tropeirismo ensinou a cidade a acolher quem estava de passagem, a indústria ensinou a criar razões para ficar. É dessa união entre posição estratégica, trabalho e cooperação que Ponta Grossa continua construindo seu lugar na economia global.























