Carnes repartidas, por Renata Régis Florisbelo
Carnes repartidas inspiram uma reflexão sobre afeto, trabalho e o vínculo diário entre um homem e duas cachorras.

Trabalho também é lugar de se alegrar. Nas bandejas no almoço de todo dia eram acomodados pratos e talheres. O copo plástico reservado para a missão mais nobre. Cuidados para não arrebentarem para ao final da refeição receberem generosa porção da guarnição propositadamente guardada para servir de mimo a elas: duas vira-latas caninas euforicamente do lado de fora do restaurante na espreita do agradinho diário. E um homem sempre vinha, a porção de carne reservada à vibração das canídeas.
Uns comentavam, outros ignoravam, absolutamente todos reparavam no homem que tirava uma porção da sua refeição, para completar o quinhão da ração das cachorras. Elas tinham fartura alimentação, então qual a real função nutricional? A resposta não era trivial. Sua doação era um modo de revelar carinho fraternal. O bicho não pede por suplício, mas sua retribuição é em forma de acompanhamento incondicional. Observo e assisto quieta, estou bem aquém de igual expressão devocional.
Autoria: Renata Regis Florisbelo
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