Historiadora defende tombamento de igrejas e alerta para perdas no patrimônio de PG
Historiadora explica o tombamento de igrejas em Ponta Grossa, afirma que reformas são permitidas e alerta para perdas no patrimônio histórico.

A historiadora Letícia Almeida defendeu o tombamento de igrejas históricas de Ponta Grossa e afirmou que a medida não impede reformas, ampliações ou a continuidade das atividades religiosas. Em entrevista ao BnT Online, ela também alertou para a circulação de informações equivocadas sobre o tema e para o risco de a cidade perder construções importantes para sua memória.
Doutora em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), com graduação e mestrado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Letícia pesquisa a história local há cerca de 17 anos. Ela também integra a Associação de Preservação do Patrimônio Cultural e Natural (APPAC), é suplente do Compac e conselheira no Conselho Municipal de Políticas Culturais.
A discussão ganhou força após o vereador Pastor Ezequiel apresentar um projeto de lei que propõe mudanças na legislação municipal. A proposta determina que o tombamento de templos religiosos dependa de autorização dos responsáveis pelas igrejas.
Segundo a historiadora, a repercussão evidenciou dúvidas sobre o significado do tombamento e seus efeitos.
“Começaram a circular muitas informações erradas. O que mais nos surpreendeu foi a desinformação sobre o que é patrimônio, o que é tombamento e quais são as possibilidades para esses imóveis”, declarou.
COMO FUNCIONA O TOMBAMENTO
Letícia explicou que qualquer cidadão ou integrante do conselho pode solicitar a abertura de um processo de tombamento. Depois disso, o pedido é encaminhado ao Compac, que analisa aspectos históricos, arquitetônicos, culturais e ligados à memória da comunidade.
A avaliação envolve a produção de estudos e de um dossiê técnico. Posteriormente, o caso é levado a uma sessão de tombamento, na qual os conselheiros analisam o parecer e decidem se o imóvel deverá ou não ser protegido.
A sessão relacionada às igrejas deverá ocorrer em 29 de agosto, durante a programação do PG Memória. O evento reúne iniciativas voltadas à preservação e à valorização da história de Ponta Grossa.
De acordo com Letícia, os templos incluídos na discussão apresentam características próprias, relacionadas tanto à arquitetura quanto à formação das comunidades religiosas e de imigrantes da cidade.
Entre os exemplos está a igreja conhecida popularmente como Igreja dos Polacos, na região central. A construção está ligada à presença da comunidade polonesa em Ponta Grossa e deverá completar 90 anos em 2027.
A historiadora também citou igrejas vinculadas a comunidades ucranianas e outros grupos que participaram da formação cultural do município.
“Essas igrejas não representam apenas uma denominação religiosa. Elas são espaços da memória coletiva e ajudam a contar a história das comunidades que formaram Ponta Grossa”, afirmou.
TOMBAMENTO PERMITE REFORMAS, DIZ HISTORIADORA
Um dos principais argumentos apresentados por pessoas contrárias ao tombamento é o receio de que a proteção impeça reformas, ampliações ou adaptações nos templos. Letícia, no entanto, afirma que isso não ocorre de maneira automática.
Segundo ela, existem diferentes níveis de proteção. Os níveis menos restritivos permitem intervenções, desde que as alterações sejam avaliadas tecnicamente e respeitem os elementos considerados importantes para a preservação do imóvel.
Como exemplo, ela mencionou a Igreja Imaculada Conceição, conhecida como Igrejinha de Uvaranas. O templo é tombado e passou recentemente por uma troca de telhado autorizada pelo Compac, sem interrupção definitiva das atividades religiosas.
Outro caso citado foi o prédio do antigo Fórum, atualmente ocupado pelo Museu Campos Gerais. A construção passou por restauração e recebeu adaptações para atender às necessidades atuais, sem perder as características históricas consideradas relevantes.
“Uma coisa não inviabiliza a outra. O tombamento permite intervenções. O imóvel pode receber adaptações de segurança, acessibilidade e uso, desde que exista uma análise técnica”, explicou.
Letícia também ressaltou que o reconhecimento patrimonial pode facilitar a participação em editais públicos e privados destinados à restauração e à conservação de imóveis históricos.
Na avaliação da historiadora, essas possibilidades podem representar uma vantagem para as próprias instituições religiosas, especialmente quando são necessárias obras de maior porte.
Ela ainda destacou que igrejas tombadas em outras cidades continuam recebendo celebrações e atividades normalmente. Em alguns municípios, esses espaços também integram roteiros culturais e de turismo religioso.
PROJETO RECEBE CRÍTICAS
Durante a entrevista, Letícia criticou o projeto que condiciona o tombamento à autorização dos responsáveis pelos templos. Na avaliação dela, a proposta entra em conflito com normas municipais, estaduais e federais de proteção ao patrimônio.
A afirmação sobre eventual inconstitucionalidade representa o posicionamento da entrevistada e ainda pode ser analisada pelos setores jurídicos e pelas comissões responsáveis durante a tramitação do projeto.
“É preciso entender os limites do trabalho do vereador e aquilo que pode ser proposto. Na nossa avaliação, esse projeto passa por cima de outras legislações que legitimam a preservação e o tombamento”, declarou.
Letícia reforçou que a proteção patrimonial não pretende retirar a autoridade dos líderes religiosos sobre as atividades desenvolvidas nas igrejas. Para ela, o debate está relacionado à preservação das construções para as futuras gerações.
A preocupação também está ligada ao histórico de demolições registrado em Ponta Grossa. Segundo a historiadora, alguns imóveis foram derrubados pouco tempo depois de receberem decisões contrárias ao tombamento.
Um dos episódios mais lembrados é a demolição da antiga Catedral Sant’Ana, na década de 1970, para a construção do atual templo.
“Hoje uma instituição pode afirmar que não pretende demolir ou alterar o imóvel, mas não sabemos o que poderá acontecer daqui a cinco, dez ou vinte anos. O patrimônio está relacionado a uma memória coletiva e a uma política pública”, disse.
Para Letícia, Ponta Grossa precisa conciliar o desenvolvimento urbano e a modernização da região central com a manutenção dos edifícios que representam diferentes períodos de sua história.
Ela lembrou que cidades como Curitiba, Recife, São Paulo, Rio de Janeiro, Lapa e Morretes preservam áreas históricas ao mesmo tempo em que promovem mudanças urbanas e novos usos para os imóveis.
“A cidade se transforma e os espaços recebem novas funções. Isso não significa que seja necessário apagar aquilo que conta a nossa história”, concluiu.
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