Eu sempre fui assim, por Lucas Gonçalves
Eu sempre fui assim: uma reflexão sobre identidade, escolhas e como muitas vezes deixamos partes importantes de nós para trás.

Quando foi a última vez que você fez algo sem que ninguém pedisse?
Sem prazo. Sem meta. Sem precisar justificar para ninguém. Só porque queria. Só porque fazia sentido para você.
Tente lembrar de verdade.
Se demorou, não é coincidência. A maioria de nós passou tanto tempo sendo o que o mundo precisa que esqueceu quem era antes de tudo isso. Antes da carreira. Antes das responsabilidades. Antes de aprender que existir sem produzir é suspeito.
Eu tinha doze anos quando montei minha primeira bicicleta peça por peça. Meses de trabalho. Sem prazo, sem ninguém mandando, sem recompensa no final além da própria bicicleta. Hoje eu entendo o que estava acontecendo: meu cérebro estava no único estado em que funciona de verdade. Fluxo total. Presença absoluta. O tipo de entrega que nenhuma métrica consegue capturar.
Na escola, eu era o aluno que não rendia. Não porque não conseguia pensar, mas porque não conseguia pensar naquilo que me pediam para pensar. Matemática, português, história: matérias que existiam num idioma que eu não falava. Eu estava lá de corpo. A cabeça estava em outro lugar.
Exceto na sala de artes. Lá o tempo parava. A atenção não precisava ser forçada: simplesmente acontecia.
Você já sentiu isso? Aquele estado onde o tempo some, o esforço desaparece e você está tão dentro do que faz que o mundo lá fora deixa de existir? Não é sorte. Não é talento. É o seu cérebro funcionando do jeito que deveria funcionar o tempo todo.
O problema é que o sistema não foi construído para isso.
Ele foi construído para produção em escala. Para rendimento mensurável. Para que todo mundo funcione do mesmo jeito, no mesmo ritmo, entregando os mesmos resultados. E quem não se encaixa nesse molde recebe um rótulo: disperso, desatento, difícil, complicado.
Eu já recebi todos esses rótulos.
Aprendi a me adaptar. A entregar o que pediam. A parecer o que esperavam. Fui ficando tão bom nisso que passei anos sem perceber que estava me apagando, trocando quem eu era pelo que o sistema queria que eu fosse.
Judô. Bicicleta. Sala de artes. As três coisas onde eu era inteiro foram ficando para trás conforme eu “crescia”.
Hoje eu sei que judô, bicicleta e sala de artes não eram distrações. Eram eu.
Demorei 42 anos para entender isso.
Quantos anos você vai precisar?
Confira mais colunas
O pior é que a gente chama isso de vida, por Lucas Gonçalves























