Caso Daniel Gajdusek revela rede de proteção a abusos
Daniel Gajdusek, Nobel de Medicina em 1976, manteve abusos contra crianças por décadas. A revista The New Yorker traz relato da jornalista Rachel Aviv sobre o caso e a conivência de colegas. O cientista admitiu que só teve sucesso por causa de ‘protetores’.

Caso Daniel Gajdusek revela rede de proteção a abusos
Daniel Carleton Gajdusek (1923–2008), pediatra e virologista que recebeu o Prêmio Nobel de Medicina em 1976, é o centro de um caso descrito como “trágico e vergonhoso” pela revista The New Yorker. A jornalista Rachel Aviv assina o artigo “The children a scientist took home” (“As crianças que um cientista levou para casa”), publicado na edição mais recente da revista. O texto relata a carreira científica brilhante do pesquisador e, ao mesmo tempo, uma trajetória de abusos sexuais contra crianças trazidas da Nova Guiné para os Estados Unidos. A reportagem evidencia como o silêncio e a conivência de colegas, inclusive outros laureados, forneceram proteção para os crimes em série ao longo de décadas.
Linha do tempo do caso
- 1976: Gajdusek recebe o Prêmio Nobel de Medicina pela identificação do agente causador do kuru.
- Décadas de 1960 a 1990: Abusos sexuais contra crianças trazidas da Nova Guiné para os Estados Unidos.
- Anos 1980: FBI investiga o cientista.
- 1998: Sai da prisão, se compara a Oscar Wilde e se muda para Amsterdã.
- 2008: Morre dois meses após registrar em diário a dependência de protetores.
Cientista renomado e abusador contumaz
Prêmio Nobel pelo estudo do kuru
Gajdusek ficou conhecido por identificar o agente etiológico — os príons — de uma doença neurodegenerativa fatal e até então misteriosa chamada kuru. A doença, hoje controlada, já foi comum em certas tribos da Oceania. Esse feito científico lhe rendeu reconhecimento internacional e a maior honraria da medicina, o Nobel de 1976. No entanto, o pesquisador também é descrito como “pedófilo contumaz”, conforme classificação utilizada no artigo.
Abusos por três décadas
A “carreira” de Gajdusek como pedófilo inclui episódios com crianças trazidas da Nova Guiné e mantidas por ele nos Estados Unidos entre os anos 1960 e 1990. A fonte não detalhou o número exato de vítimas, mas confirma que os abusos ocorreram ao longo de três décadas. Essa dupla face — a de cientista premiado e a de abusador em série — é o eixo central da reportagem de Rachel Aviv.
Investigação federal e prisão
FBI investiga cientista
Nos anos 1980, Gajdusek foi investigado pelo FBI, a polícia federal dos Estados Unidos. Anos depois, ele seria detido e preso, chegando a cumprir pena de um ano de reclusão. A fonte não detalhou o ano exato da prisão nem o local onde cumpriu a pena, mas confirma que a detenção ocorreu após as investigações. O caso ganhou notoriedade por envolver um cientista laureado com o Nobel, fato que ampliou a repercussão das acusações.
Comparação com Oscar Wilde
Em 1998, quando saiu da prisão, o próprio Gajdusek se comparou ao escritor irlandês Oscar Wilde (1854–1900). Essa comparação, registrada na época, foi um dos elementos que mostraram como ele encarava suas condenações. A referência a Wilde, no entanto, não foi um pedido de desculpas, mas uma tentativa de se colocar como vítima de uma suposta perseguição.
A comparação com Wilde refere-se ao período em que o escritor permaneceu encarcerado entre 1895 e 1897. Na época, a legislação britânica classificava “atos homossexuais” como crime, mesmo em casos envolvendo adultos. Wilde foi condenado por praticar tais atos, segundo a reportagem. A menção a Wilde, porém, não minimiza a gravidade dos crimes de Gajdusek, que envolviam crianças, não adultos. A fonte não apresentou comentários externos sobre essa comparação, mas o contexto histórico é claro.
Diário revela dependência de protetores
Anotação póstuma
Assim que saiu da prisão, Gajdusek deixou os Estados Unidos e foi morar na Europa, estabelecendo residência em Amsterdã. Segundo Rachel Aviv, dois meses antes de morrer, em 2008, ele anotou em seu diário: “Levei a minha pedofilia de longa data para a minha carreira médica e fui bem-sucedido em ambas, com raras exceções. Sem protetores, eu jamais teria sido bem-sucedido.” A frase, em tradução livre, expõe de forma direta a existência de uma rede de conivência que permitiu os abusos.
Rede de conivência
A declaração do próprio cientista reforça o que a reportagem chama de “vergonhoso”: o silêncio e a conivência de muitos colegas, outros laureados inclusive, diante dos crimes em série que o virologista norte-americano estava cometendo. A fonte não detalhou quem seriam esses “protetores”, mas a admissão de Gajdusek indica que ele contava com apoio ou omissão de terceiros. Essas informações constam na reportagem original, que pode ser consultada pelo leitor.
O silêncio dos colegas
O artigo de Rachel Aviv está disponível gratuitamente na revista The New Yorker, ao menos por enquanto, e pode ser acessado pelo público. Um breve resumo da reportagem também foi divulgado em inglês. A jornalista destaca que o aspecto mais vergonhoso do caso não é apenas a conduta de Gajdusek, mas a rede de proteção que o cercou por décadas.
A expressão “rede de proteção” não aparece literalmente na reportagem, mas é uma síntese do que Gajdusek escreveu em seu diário ao afirmar que, sem protetores, jamais teria sido bem-sucedido. Esse reconhecimento póstumo reforça a tese de que instituições e indivíduos contribuíram para a perpetuação dos abusos. A reportagem de Aviv, portanto, serve como alerta sobre como o prestígio pode encobrir condutas criminosas.
O caso de Daniel Gajdusek levanta questões sobre responsabilidade institucional e o papel de figuras de destaque na proteção de criminosos em série. A íntegra do artigo pode ser lida no site da revista norte-americana. Para mais reportagens investigativas e análises sobre ciência e sociedade, continue navegando pelo portal Boca no Trombone.
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