Coisas alisadas, por Renata Regis Florisbelo
Um olhar poético sobre o gesto de afagar: mãos que tocam objetos, animais e livros, revelando afeto, memória e a delicadeza do cotidiano.

Mãos anseiam por mostrar seu afeto e coisas ao seu alcance recebem um carinho adicional. Comecei a perceber o hábito alheio em tocar com intensidade tudo. Talvez tenha começado com a roupa de cama a cada manhã: lençol, fronha, colcha. Flagrei a mim mesma a acarinhar coisas animadas e inanimadas: gatos, cadernos, louças, paredes, móveis, tapetes, toalhas de mesa.
O toque em objetos e pessoas a se esparramar em prazer com mais vontade por uns do que por outros. Peças, panelas e tudo parece tão atrativo e merecedor de um afago. Os quadros negros e os pincéis. Sempre me demoro, deslizando no objeto a ser alisado. É um ímpeto: o toque com o toque. A mão que afaga não esquece quem a afagou.
Difícil desapegar dos guardanapos, tão marcados. Sapatos e chinelos igualmente recebem atenção especial, mesmo quando fora dos pés. Toda e qualquer parte do corpo jamais será esquecida. Aprecio muito alisar livros.
Autoria: Renata Regis Florisbelo
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