Cegonha, por Renata Regis Florisbelo
Quando a fantasia da cegonha cai da estante, a inocência encontra a biologia — e o corpo, em silêncio, aprende o que nunca disseram em voz alta.

Desde pequenos escutávamos sobre as cegonhas a sustentar um parrudo bebê. Ninguém perguntava de onde elas vinham e por que portavam bebês. Assim eles chegavam e “ponto” final. Cegonha é cegonha e serve para trazer bebês.
Enquanto isto e com tudo isto, o mocinho crescia, adentrando pouco a pouco no universo adulto. Aulas e aquele corpo experimentava reações que a chegada dos hormônios começavam a provocar. A visão de mocinhas de minissaia atiçava seu corpo, outrora manso, agora cheio de estranhos desejos.
Um calor que vinha de um fulgor lá de baixo. E, antes que a confusão se fizesse ainda maior, caiu, não do céu, mais do alto de uma estante na biblioteca, não uma cegonha, mas um livro de biologia que explicava a anatomia humana e suas funções. Foi então que o céu de cegonhas desabou no esquema da página seguinte: corpos em encaixe e então era assim que novas pessoas eram esperadas.
Nunca mais voariam nos céus pássaros com seus pacotes despropositados.
Autoria: Renata Regis Florisbelo
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