Olheiras, por Renata Régis Florisbelo
A aprendiz debruçava-se sobre a bancada para constatar, abaixo dos olhos aquela mancha escura invasiva e precoce. Não era certo que tal incômodo pertence a uma menina. Mas, pertencia. O jeito era ter sempre um estojo com corretivo e esponjinha própria para apalpar aquele sombrio tom. E ela aplicava o pó na esponja, aplicava na […]

A aprendiz debruçava-se sobre a bancada para constatar, abaixo dos olhos aquela mancha escura invasiva e precoce. Não era certo que tal incômodo pertence a uma menina. Mas, pertencia. O jeito era ter sempre um estojo com corretivo e esponjinha própria para apalpar aquele sombrio tom. E ela aplicava o pó na esponja, aplicava na pele e tornava a aplicar o pó na esponja e recomeçar tudo num movimento que não tinha mais fim, posto que a cobertura nunca cobria o suficiente. Queixava-se que tinha que acordar tão cedo que a falta de sono lhe provocava as olheiras. Para aplicar camadas e camadas do tal corretivo era preciso acordar mais cedo, vezes e vezes repetindo a aplicação.
Acordar cedo produz olheiras. As olheiras requerem que se acorde mais cedo para maquia-las. Acordando mais cedo, lá vem na pele aparecer mais olheiras…. Não contei quantas camadas ela aplicava, parecia que tal ritual nunca mais acabaria.
Autoria: Renata Regis Florisbelo
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