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Arquivo Nery Rezende mostra vida da mulher negra em SP no século 20

O arquivo de Nery Rezende, mulher negra nascida em 1930 no interior de São Paulo, revela o cotidiano urbano do século 20 através de fotografias e registros pessoais. Sua trajetória, da infância rural à vida na capital, inclui trabalho doméstico, industrial e documentação familiar, agora preservada como acervo histórico.

Arquivo Nery Rezende mostra vida da mulher negra em SP no século 20
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Arquivo histórico revela cotidiano paulistano

O arquivo de Nery Rezende, mulher negra nascida em 1930, oferece um retrato íntimo do cotidiano em São Paulo durante o século 20. Composto por fotografias e registros pessoais, o acervo foi organizado e doado ao museu em 2020.

Essa coleção ilumina não apenas sua vida, mas também a de sua irmã, Alice Rezende, atriz ligada ao Teatro Experimental do Negro. A trajetória de Nery começa longe da capital, mas sua documentação captura a experiência urbana.

Seus materiais mostram trabalho, lazer e relações familiares em uma cidade em transformação. O arquivo se tornou fonte histórica após ser pesquisado por mais de sete anos pelo antropólogo Alexandre Araújo Bispo.

O reconhecimento como acervo histórico veio após contato com sua filha, Greissy Rezende. Ela descobriu os materiais após a morte da mãe, abrindo caminho para a preservação.

A doação ocorreu durante a pandemia de Covid-19, assegurando a memória para futuras gerações.

Infância e separação familiar

Origem rural e batismo

Nery nasceu em 13 de maio de 1930 na Fazenda Forquilha, em São José do Rio Preto, interior de São Paulo. Batizada na Igreja Católica como Maria Luisa da Silva, recebeu o apelido Nery da mãe desde o berço.

Esse apelido mais tarde se tornou seu nome artístico. Seus pais eram lavradores e empregados na fazenda onde ela veio ao mundo.

Separação dos irmãos

Ela era a primeira de três irmãos naturais e um adotado: Nestor, Alice e Jackson. Diante da falta de condições financeiras, Nery e Jackson foram enviados a duas famílias sem laço sanguíneo no interior de São Paulo.

Lá, viveram como “filhos de criação”, um arranjo comum na época para crianças de origem humilde. Essa separação marcou o início de uma vida de adaptações.

Mudança forçada para a capital

Na adolescência, Nery foi obrigada por seus “padrinhos” a se mudar para a capital. Ela foi morar com uma nova família no bairro da Aclimação, em São Paulo, deixando para trás o ambiente rural.

Chegada e trabalho na capital

Trabalho doméstico inicial

No novo local, Nery trabalhava como babá não-remunerada para assegurar sua sobrevivência na cidade. Essa função doméstica era típica para muitas jovens negras migrantes na época.

Quando atingiu a maioridade, deixou a residência para morar com a mãe e a irmã, Alice Rezende, no bairro Bela Vista.

Início da documentação e transição profissional

A partir da década de 1950, Nery começa a guardar inúmeros registros do seu cotidiano e dos seus familiares. Em São Paulo, trabalhou como empregada doméstica e depois migrou para a indústria de tecelagem.

Nessa indústria, começou a atuar de maneira assalariada. Essa transição reflete mudanças no mercado de trabalho urbano.

Interrupção por doença

Sua vida na cidade, no entanto, é interrompida após contrair tuberculose. Nery ficou internada em Campos de Jordão de 1953 a 1954, um período de tratamento e afastamento.

Com o fim do tratamento, retornou à capital, onde retomou suas atividades profissionais.

Carreira e documentação da vida urbana

Trajetória profissional diversificada

Após a recuperação, Nery trabalhou primeiro como balconista e depois como gerente nas Lojas Capri até 1965. Naquele ano, passou a trabalhar como vendedora ambulante.

Em 1967, começou como balconista no Serviço Social da Indústria, o Sesi, até se aposentar em 1991. Essas ocupações mostram a diversidade de experiências laborais na cidade.

Produção cultural e fotográfica

Durante esses anos, consumiu e produziu de forma assídua fotografias, inclusive com equipamento próprio. Ela e sua irmã Alice eram leitoras assíduas, ouvintes de rádio e apreciadoras de cinema, teatro e caminhadas no centro de São Paulo.

Essas atividades revelam um cotidiano cultural ativo, mesmo em meio a desafios econômicos.

Legado da irmã Alice Rezende

O acervo também ilumina a trajetória de Alice Rezende (1932-1961), irmã de Nery, atriz, cantora, vedete e modelo vivo. Ela foi atuante na cena cultural paulistana dos anos 1950 e ligada ao Teatro Experimental do Negro.

A documentação de ambas oferece um panorama da presença negra na vida social da cidade.

Preservação e legado histórico

Reconhecimento acadêmico

O conjunto passou a ser reconhecido como arquivo histórico após o contato do antropólogo Alexandre Araújo Bispo durante o mestrado com a filha de Nery, Greissy Rezende. Alexandre conheceu o acervo e pesquisou a coleção por mais de sete anos.

Essa pesquisa veio a se tornar a sua tese de doutorado. O antropólogo, junto a Greissy, organizou o material e mediou a sua doação ao museu em 2020, durante a pandemia de Covid-19.

Significado histórico do acervo

Essa preservação garante que a memória de Nery Rezende e sua família não se perca. O arquivo serve como testemunho da resistência e da vida cotidiana de mulheres negras em São Paulo.

Através de fotografias e registros, ele conta uma história que muitas vezes ficou fora dos livros oficiais.

Legado ampliado

O legado de Nery vai além de sua própria biografia, incluindo a de sua irmã Alice e de outros familiares. Seu acervo continua a ser estudado, oferecendo novas perspectivas sobre o século 20 paulistano.

Assim, a história pessoal se transforma em patrimônio coletivo.

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Bruna Perozak
Autoria
Bruna Perozak
Mãe da Maria Eduarda e apaixonada por comunicação! Tenho 20 anos de experiência em jornal impresso, rádio e agência de publicidade. Adoro transformar ideias em resultados, sempre com criatividade, bom humor e aquele toque especial que faz a diferença.
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