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Laudos desmentem acusações de vereadores sobre maus-tratos a animais no CRAR em PG

Exames descartaram envenenamento no Crar e apontaram uma grave doença cardíaca no cão Tigrinho; documentos também mostram que Dentinho estava internado em Curitiba e foi devolvido à tutora

Laudos desmentem acusações de vereadores sobre maus-tratos a animais no CRAR em PG
Heryvelton Martins / BnT Online
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Laudos laboratoriais e documentos veterinários divulgados nesta quarta-feira (29) desmentem acusações feitas por vereadores sobre dois casos de supostos maus-tratos envolvendo animais atendidos pelo Centro de Referência para Animais em Risco (CRAR), em Ponta Grossa. Os documentos tratam da morte do cão Tigrinho e do suposto desaparecimento de Dentinho. Os dois episódios foram usados em manifestações públicas relacionadas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou os serviços prestados pela Clinicão.

No caso de Tigrinho, identificado nos documentos veterinários como Letrado, o laudo anatomopatológico aponta que o cachorro apresentava uma grave cardiopatia preexistente. O exame descreve alterações acentuadas no coração, consideradas compatíveis com a possibilidade de um óbito súbito. Os testes toxicológicos também apresentaram resultado negativo para diferentes tipos de veneno. Além disso, os documentos não apontam que o cachorro tenha sido submetido à eutanásia.

Segundo a Clinicão, Tigrinho morreu durante a contenção realizada para a avaliação inicial, antes da aplicação de anestesia e antes do início da castração ou de qualquer procedimento cirúrgico. A conclusão confronta diretamente declarações feitas pelo vereador Geraldo Stocco. Em manifestações na Câmara e em publicações nas redes sociais, o parlamentar afirmou que o cachorro estava saudável e sustentou que ele teria sido morto por meio de eutanásia.

A vereadora Joce Canto, relatora da CPI, também apresentou questionamentos públicos sobre o caso e sobre os procedimentos adotados no atendimento ao animal. No caso de Dentinho, documentos, registros veterinários e vídeos apresentados pela empresa mostram que o cachorro não havia desaparecido. O animal estava internado em Curitiba, onde recebeu tratamento ortopédico especializado após sofrer um atropelamento.

Dentinho permaneceu em tratamento por aproximadamente 40 dias. Após a recuperação, recebeu alta, foi castrado e devolvido à tutora. As informações respondem às cobranças feitas durante a investigação, inclusive por integrantes do gabinete de Geraldo Stocco. Em mensagens sobre o caso, um assessor do vereador cobrou explicações sobre a localização do animal e acusou a empresa de ter “sumido” com o cachorro.

Laudo não aponta eutanásia

Tigrinho foi encaminhado ao serviço veterinário para avaliação clínica e possível castração. Conforme a documentação apresentada pela Clinicão, o animal passou pela avaliação inicial e pela coleta de sangue. Antes de uma cirurgia, animais precisam passar por procedimentos preparatórios, assim como ocorre com pacientes humanos. Entre os cuidados estão a avaliação clínica, a realização de exames, o jejum e a permanência em um ambiente controlado até o momento do procedimento.

Segundo a empresa, ainda durante a contenção e antes da aplicação da anestesia, Tigrinho sofreu um mal súbito e morreu. O laudo anatomopatológico, emitido pela Bionostic Diagnóstico Veterinário em 29 de julho de 2026, identificou alterações importantes no coração. O animal aparece nos documentos sob o nome de Letrado e com o protocolo nº 1.087.804.

Entre os achados estão uma “hipertrofia ventricular esquerda concêntrica acentuada” e uma “moderada dilatação ventricular direita”. Em termos simples, uma das paredes do coração estava muito mais grossa do que o normal, enquanto outra parte do órgão apresentava dilatação. Segundo a interpretação técnica apresentada no documento, essas alterações comprometiam o funcionamento cardíaco e poderiam provocar uma morte repentina.

A médica-veterinária patologista responsável pela análise indicou que a cardiopatia era preexistente. Isso significa que o problema no coração já estava presente antes de o cachorro ser encaminhado ao CRAR. A condição poderia permanecer sem sinais evidentes e provocar um colapso em diferentes momentos, especialmente diante de esforço, medo, agitação ou estresse. Dessa forma, o fato de a morte ter ocorrido durante a contenção não indica que a contenção tenha causado a doença. O laudo aponta que o animal já tinha uma alteração cardíaca grave, compatível com a possibilidade de morte súbita.

Segundo a Clinicão, não houve aplicação de medicamento para provocar a morte, anestesia, castração ou qualquer outro procedimento cirúrgico antes do óbito. Os documentos apresentados também não registram a realização de eutanásia.

Publicações feitas por Geraldo Stocco relacionaram a morte de Tigrinho a uma suposta eutanásia | Reprodução/Redes sociais

Exames descartam venenos pesquisados

Além da análise do coração e dos demais órgãos, foi realizada uma bateria de testes para investigar a possível presença de substâncias tóxicas no organismo de Tigrinho. A chamada Bateria de Venenos por Cromatografia apresentou resultado negativo para carbamatos, estricnina, organofosforados e outros agentes pesquisados. Essas substâncias podem ser encontradas em produtos tóxicos e são investigadas quando existe suspeita de intoxicação ou envenenamento.

Nenhum dos agentes pesquisados foi identificado nas amostras analisadas. O exame para raiva também apresentou resultado negativo. Com isso, os documentos descartam a presença dos venenos pesquisados. O laudo anatomopatológico, por outro lado, identificou a grave alteração cardíaca preexistente como um elemento compatível com a morte repentina. O conjunto dos exames não aponta envenenamento e não apresenta registros de que o cachorro tenha sido submetido à eutanásia.

A acusação de eutanásia foi um dos principais pontos explorados por Geraldo Stocco ao tratar publicamente da morte de Tigrinho. O vereador afirmou que o animal estaria saudável e acusou a Clinicão de ter provocado o óbito. Os resultados divulgados agora apresentam uma explicação clínica diferente: Tigrinho tinha uma cardiopatia grave, que poderia não ser percebida externamente e provocar um colapso súbito.

Dentinho estava internado em Curitiba

Outro episódio usado para questionar a atuação da Clinicão foi o caso do cão Dentinho. Durante a investigação, vereadores, assessores parlamentares e pessoas envolvidas nas cobranças públicas questionaram o paradeiro do cachorro. Um assessor ligado ao gabinete de Geraldo Stocco chegou a cobrar informações sobre a localização de Dentinho e a afirmar que a empresa teria “sumido” com o animal.

Os documentos apresentados pela Clinicão mostram, no entanto, que Dentinho estava internado em Curitiba. O cachorro havia sido vítima de um atropelamento e apresentava lesões ortopédicas graves. Conforme os registros, existia o risco de amputação de um dos membros. Por causa da complexidade do quadro, o animal foi transferido para o Hospital Veterinário da Clinicão, na capital paranaense.

No local, Dentinho recebeu atendimento especializado e acompanhamento de um médico-veterinário ortopedista. O tratamento tinha como objetivo preservar o membro atingido e evitar a amputação. O animal permaneceu internado por aproximadamente 40 dias. Durante esse período, passou por avaliações, procedimentos veterinários e acompanhamento da recuperação. Após apresentar melhora, Dentinho recebeu alta, foi castrado e devolvido à tutora.

A entrega do cachorro foi registrada em vídeo. A responsável pelo animal também confirmou que ele retornou para casa vivo e recuperado. Para a Clinicão, o caso foi apresentado como um possível desaparecimento antes que fossem verificadas as informações sobre a transferência para Curitiba, o tratamento ortopédico e o período de internação. A empresa sustenta que os documentos comprovam que Dentinho não foi escondido nem desapareceu. O cachorro estava recebendo tratamento especializado para evitar a perda de um membro.

DOCUMENTOS REFORÇAM PEDIDO DE NULIDADE

Os documentos relacionados aos casos de Tigrinho e Dentinho serão usados pela defesa da Clinicão para reforçar o pedido de nulidade da CPI do CRAR. A solicitação foi protocolada na Câmara Municipal de Ponta Grossa em 22 de julho, sob o nº 4113/2026. A empresa pede a suspensão dos efeitos da comissão, a anulação dos atos realizados e o arquivamento da investigação.

Entre os argumentos apresentados estão a suposta parcialidade de integrantes da CPI, o cerceamento do direito de defesa, dificuldades para acessar documentos e a ausência da oitiva de representantes diretamente ligados à execução dos serviços. A Clinicão também afirma que integrantes da comissão fizeram acusações públicas e anteciparam conclusões antes da análise de documentos técnicos e antes do encerramento da investigação.

Segundo a empresa, um relatório parcial teria sido produzido antes que seus principais representantes fossem ouvidos. O pedido foi encaminhado pelo presidente da Câmara Municipal, Júlio Küller, ao Departamento Jurídico da Casa. Até o momento, a CPI não foi anulada e as conclusões do relatório continuam válidas enquanto não houver decisão em sentido contrário. Em nota enviada ao BnT Online, a Clinicão afirmou que decidiu tornar públicos os documentos dos casos Tigrinho e Dentinho para apresentar à sociedade as provas técnicas relacionadas aos atendimentos.

“A Clinicão torna públicos os documentos e informações relativos aos casos ‘Tigrinho e Dentinho’ por entender que esta é a única forma de apresentar à sociedade os fatos e as provas técnicas que demonstram a realidade de cada caso”, declarou. A empresa afirmou que os episódios representam exemplos da forma como teria sido tratada durante a investigação, marcada, segundo a defesa, por acusações públicas e conclusões antecipadas.

“Os casos aqui relatados representam apenas dois exemplos da forma como fomos tratados ao longo da investigação, marcada por acusações públicas e juízos de valor antecipados, formulados antes da conclusão de qualquer parecer técnico e sem que nos fosse assegurada a efetiva oportunidade de apresentar documentos, esclarecimentos e elementos de defesa”, acrescentou. A Clinicão sustenta que a condução comprometeu a imparcialidade da comissão e resultou em cerceamento do direito de defesa.

“Entendemos que essa condução comprometeu a imparcialidade da Comissão Parlamentar de Inquérito e resultou em evidente cerceamento do nosso direito de defesa, razão pela qual protocolamos o pedido de nulidade da CPI do CRAR, cujos fundamentos serão apreciados pelas autoridades competentes”, concluiu.

Relembre o caso

A CPI do CRAR foi instalada em abril de 2026 para investigar possíveis irregularidades administrativas, contratuais, sanitárias, financeiras e operacionais nos serviços prestados pela Clinicão em Ponta Grossa. A comissão analisou o Pregão Eletrônico nº 90025/2025 e os contratos municipais nº 115/2025 e nº 181/2026, relacionados à operação do CRAR e aos atendimentos veterinários. A CPI foi presidida pela vereadora Teka dos Animais e teve Joce Canto como relatora. Também participaram os vereadores Geraldo Stocco, Guilherme Mazer e Léo Farmacêutico.

Durante as oitivas e manifestações públicas, foram levantados questionamentos sobre a licitação, a fiscalização dos contratos, os registros dos atendimentos, as condições dos animais e a atuação da empresa. O relatório final possui 198 páginas e recomenda o encaminhamento das informações ao Ministério Público, ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), ao Tribunal de Contas do Estado, à Polícia Civil, à Receita Federal, ao Conselho Regional de Medicina Veterinária e a outros órgãos de fiscalização.

A comissão também apontou suspeitas relacionadas à pesquisa de preços, à preparação da licitação, à fiscalização e à execução dos contratos. As conclusões da CPI não representam uma condenação judicial. Os documentos enviados aos órgãos competentes ainda deverão ser analisados, e caberá a essas instituições decidir se existem provas para a abertura ou continuidade de investigações. Os novos laudos não tratam de todos os pontos investigados pela comissão. Eles abordam especificamente a morte de Tigrinho e as cobranças sobre o paradeiro de Dentinho.

No caso de Tigrinho, os resultados apontam uma cardiopatia grave e preexistente, descartam os venenos pesquisados e não apresentam registros de eutanásia. No caso de Dentinho, os documentos mostram que o cachorro permaneceu internado em Curitiba, recebeu tratamento ortopédico e foi devolvido à tutora após a recuperação.

O que dizem os envolvidos

Em resposta ao BnT Online, a vereadora Joce Canto afirmou que o relatório final da CPI não apresenta laudo sobre o cão Tigrinho e que os casos individualizados analisados formalmente pela comissão foram outros. Segundo a relatora, um único exame não responde às mais de 190 reclamações recebidas nem aos demais pontos investigados, como possíveis irregularidades na licitação, na fiscalização e na execução do contrato.

A parlamentar afirmou ainda que caberá à Clinicão prestar esclarecimentos aos órgãos de controle que receberam o relatório da CPI. O vereador Geraldo Stocco também foi procurado pelo BnT Online para comentar o novo laudo, especialmente diante das declarações anteriores relacionadas a uma suposta eutanásia. Stocco informou que ainda não recebeu a íntegra do documento e que só irá se manifestar após analisar todo o conteúdo.

O espaço permanece aberto para novas manifestações dos vereadores e dos demais envolvidos.

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Equipe de jornalismo do BnT Online, cobrindo Ponta Grossa e os Campos Gerais.
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