Feliz, por Renata Regis Florisbelo
Crônica compara a felicidade simples dos vira-latas livres à dureza de um homem infeliz, convidando à reflexão sobre o viver leve.

Gosto de gente feliz que não precisa de motivo algum, simplesmente é. Aquele sorriso que lança fachos de luz. Feliz porque é feliz. Um cachorrinho que puxa a fila dos demais de rua como ele e seguem vibrantes. E eles se agitam, sacodem o rabo, abanam as moscas, cara feia e narizes empinados e tocam o cortejo da alegria canina.
É possível que felicidade seja feito alegria canina, basta uma travessia de rua, uma lata de lixo para se fartar e ser feliz. Enquanto isso o velho homem seguia casa afora, carro adentro. Face cerrada, tensão nos maxilares e nada de bom saía daquela boca, nem mesmo um som que remetesse a um cachorro feliz.
Palavras, as únicas proferidas eram para falar mal de alguém que andava feliz feito cachorro vira lata livre. Nos espaços refinados e tidos como bem frequentados, aquele é um carrancudo homem. Um pobre atormentado pelo que sua expressão azeda silenciosamente diz.
O infeliz era muito mais infeliz do que o cachorro que segue faceiro atrás do que sempre quis.
Autoria: Renata Regis Florisbelo
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