SÁBADO · 27 JUN 2026Ponta Grossa 11°C
Publicidade
Colunistas

A Segurança que Ninguém Quer Ver: Entre a Teoria e a Prática da Prevenção de Acidentes

Ao longo de mais de 30 anos dedicados à prevenção na área de segurança do trabalho, vivendo o cotidiano do chão de fábrica e participando de debates e fóruns especializados, tornou-se evidente uma realidade incômoda: a segurança do trabalho no Brasil convive com uma divisão crônica entre a teoria e a prática. Essa dicotomia compromete […]

A Segurança que Ninguém Quer Ver: Entre a Teoria e a Prática da Prevenção de Acidentes
A Segurança que Ninguém Quer Ver: Entre a Teoria e a Prática da Prevenção de Acidentes
Publicidade

Ao longo de mais de 30 anos dedicados à prevenção na área de segurança do trabalho, vivendo o cotidiano do chão de fábrica e participando de debates e fóruns especializados, tornou-se evidente uma realidade incômoda: a segurança do trabalho no Brasil convive com uma divisão crônica entre a teoria e a prática. Essa dicotomia compromete os avanços da área, por mais que todos os envolvidos atuem com boa vontade e intenções legítimas.

A distância entre o campo e o gabinete

A velha metáfora do “ovo da galinha versus o da pata” — em que se valoriza quem faz barulho em vez de quem trabalha silenciosamente — aplica-se com perfeição à segurança do trabalho. De um lado, estão os profissionais do SESMT (Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho), que atuam diretamente na prevenção no cotidiano das empresas. De outro, os especialistas que, embora embasados tecnicamente, muitas vezes desconhecem a realidade prática dos ambientes laborais.

Esse distanciamento resultou, com o tempo, em uma série de equívocos. Em vez de convergir para soluções efetivas, as discussões frequentemente se perdem em academicismos ou decisões descoladas da realidade, o que, paradoxalmente, prejudica justamente aqueles que deveriam ser protegidos: os trabalhadores.

O que realmente falha na segurança do trabalho?

Não é a legislação o maior problema. Pelo contrário — as Normas Regulamentadoras (NRs) brasileiras são, em grande parte, modernas e consistentes. O verdadeiro entrave está na sua aplicação prática. Em muitas empresas, simplesmente não são cumpridas. No entanto, onde há implementação eficaz dos programas de segurança, os resultados superam até mesmo países considerados referência no tema, mesmo com equipamentos defasados e desafios estruturais.

O modelo de SESMT brasileiro, ao contrário do que alguns afirmam, deu certo — desde que aplicado na prática. A análise de dados de uma amostragem de 12 grandes empresas nacionais demonstra com clareza: em todas elas, houve evolução significativa nos indicadores de segurança e saúde no trabalho. O diferencial? O cumprimento efetivo das normas e a atuação consistente de profissionais da área de segurança e a participação de todos os níveis de gestão.

O que os números e a experiência mostram

Essas empresas, como tantas outras, enfrentaram adversidades externas, crises econômicas, pressão por produtividade, expansão das terceirizações. Mesmo assim, mantiveram padrões aceitáveis e, em alguns casos, exemplares de segurança ocupacional. Isso só foi possível porque havia estrutura, compromisso e investimento em prevenção.

É preciso lembrar que, historicamente, algumas empresas brasileiras eram referência internacional em segurança do trabalho, mesmo pertencendo a setores de alto risco. Essa realidade está mudando — e não necessariamente para melhor. A abertura irrestrita à terceirização, por exemplo, criou lacunas de responsabilidade, desorganizou os processos e expôs trabalhadores a riscos muitas vezes invisibilizados.

A urgência de uma visão integrada

A constatação é clara: onde há profissionais de segurança presente e ativo, há melhoria comprovada. Ignorar esse fato, sem uma análise profunda e estatisticamente válida, é não apenas imprudente, mas injusto. Para avançarmos, é essencial abandonar a polarização entre teoria e prática e buscar um modelo integrado de prevenção, que respeite as normas, mas também a realidade dos ambientes laborais.

A prevenção de acidentes não pode ser tratada apenas como uma exigência normativa, tampouco como um ideal teórico. Ela deve ser compreendida como uma responsabilidade coletiva, baseada em evidências e experiências concretas, com envolvimento de todos os atores — desde o chão de fábrica até as instâncias de decisão.

Considerações finais

É hora de olharmos com mais atenção para a “segurança que ninguém quer ver”: aquela que acontece no silêncio da rotina, no comprometimento diário dos profissionais da área, e nos resultados que, embora nem sempre celebrados, salvam vidas. Valorizar os profissionais de segurança, investir na sua atuação e integrar teoria e prática não é apenas uma decisão técnica. É, sobretudo, um compromisso ético com a dignidade do trabalho.

Tags
Rafael Mansani e José Leal
Autoria
Rafael Mansani e José Leal
Rafael Mansani - Engenheiro Civil e de Segurança do trabalho, pós graduado em Gestão Pública, Mestrando em Eng. De Produção. Diretor Executivo do IPLAN-PMPG. José Leal - Engenheiro civil; Engenheiro de Segurança do Trabalho; Pós-Graduado em: Eng. Sanitária e Ambiental; MBA de Gestão de Eng. de Segurança do Trabalho; Ergonomia; Administração Aplicada à Segurança do Trabalho.
Ver todas as matérias →
Publicidade
Publicidade
Notícias relacionadas
Web Stories
Todas →
VídeosMais vídeos para você curtir
Ver no YouTube →